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É guerra! Em 2003, Globo e SBT brigam dentro de estádio para exibir jogo e caso vai parar na Justiça

Sônia Abrão fez a cobertura de confusão envolvendo Globo e SBT. (Foto: Montagem/Reprodução/YouTube/Arquivo Marckenzini)
Sônia Abrão fez a cobertura de confusão envolvendo Globo e SBT. (Foto: Montagem/Reprodução/Arquivo Marckenzini)

Há 17 anos, Globo e SBT tinham concorrência acirrada e chegaram a protagonizar briga para transmitir o Campeonato Paulista

Quem hoje vê a relação amistosa entre Globo e SBT, mal pode imaginar que no início dos anos 2000, as duas emissoras promoveram embates históricos e tinham uma relação de rivalidade extrema.

Tudo teve início ainda em 2001, quando o sequestro de Silvio Santos e da filha, Patrícia Abravanel, ganhou destaque nos principais noticiários do Grupo Globo, algo que desagradou a família do dono do Baú.

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Ainda naquele ano, a Globo e o SBT batalharam na Justiça, já que a emissora carioca acusava Silvio Santos de plagiar o formato do Big Brother com a Casa dos Artistas. Em resposta à concorrente na época, o SBT citou, em tom crítico, justamente a superexposição que o sequestro ganhou através da Globo.

No final de 2002, a relação entre as duas emissoras parecia um pouco mais tranquila, mas voltou a ficar estremecida após uma briga por outro produto: o Campeonato Paulista.

Silvio Santos desejava voltar a investir em transmissões de futebol após exibir a Copa do Brasil e a Copa Mercosul, em 1998. O dono do Baú tinha o Paulistão como primeiro alvo. A Globo já tinha contrato com a Federação Paulista de Futebol pela exibição das últimas temporadas do campeonato, mas em novembro de 2002, recusou uma proposta da Federação Paulista de Futebol para transmitir, no ano seguinte, 12 jogos do campeonato por cerca de R$ 12 milhões.

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O torneio foi, então, oferecido ao SBT, e Silvio Santos topou pagar o valor, mas para a exibição de 22 partidas e com exclusividade na TV aberta. A Globo, no entanto, se revoltou, alegando que tinha preferência, em contrato, para renovar o vínculo de exibição do campeonato, e por 22 jogos, acreditava que seria um bom negócio.

Por isso, no final de dezembro, a emissora enviou um fax para a Federação Paulista afirmando que igualava a proposta do SBT e exigia o seu suposto direito de preferência na renovação do contrato. Porém, a Federação alegou que o fax havia sido enviado já no período de recesso, e decidiu manter o acordo com o SBT.

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Com a rivalidade entre as duas emissoras acirradas e com a obsessão de acabar com o “monopólio” da Globo, Silvio Santos sonhava alto e planejava desembolsar cerca de R$ 200 milhões para tomar até mesmo o Campeonato Brasileiro da Globo e transformar o SBT no “canal do esporte”. Em um comunicado à imprensa sobre a transmissão do Paulistão, a emissora não perdeu a oportunidade de alfinetar a concorrente: “Está encerrada, assim, a fase monopolista do futebol brasileiro e da realização de jogos em horários absurdos, conveniente apenas para a rede que tinha o monopólio”.

Logo no início de 2003, a Globo não deixou barato e já ameaçava ir à Justiça para barrar o acordo da Federação Paulista com o SBT, enquanto a emissora de Silvio Santos respondia tentando convencer os clubes de futebol a romperem com a concorrente para transmitir o Brasileirão.

No dia 24 de janeiro, véspera da estreia do Campeonato Paulista, a Globo havia conseguido uma liminar que lhe dava o direito de transmitir a competição. Porém, o SBT arranjou outra liminar na Justiça, que lhe permitia exibir as partidas. Assim, no dia 25, as duas emissoras compareceram juntas ao estádio Ramalhão, cada uma com sua liminar, para transmitir o jogo de abertura da competição entre Santo André e Santos.

Horas antes do início da partida, o SBT fazia uma espécie de cobertura ao vivo do caso, com o programa Falando Francamente, apresentando por Sônia Abrão, que demonstrava indignação com a presença da Globo no estádio. A Federação Paulista estava do lado da emissora de Silvio Santos, e chegou a barrar a entrada de parte da equipe da Globo no local, mas a emissora ainda conseguiu montar uma estrutura com algumas câmeras para exibir o jogo.

A Federação Paulista não ousou tirar os equipamentos da Globo à força, pois, segundo informações do jornal Folha de S. Paulo na época, funcionários fizeram uma trapalhada e quase tiraram o próprio SBT do ar.

No intervalo, a Federação Paulista chegou a atrasar o reinício da partida em até meia hora, tudo para fazer a Globo desistir da transmissão para não atrasar sua programação, mas não adiantou. Apesar de toda essa confusão, a Globo manteve o seu público fiel e derrotou o SBT de lavada na audiência: 16 pontos a 5.

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E não parou por aí. Dias depois, a Globo acabou recuperando os direitos de transmissão do Campeonato Paulista. Mesmo assim, o SBT insistia em exibir o torneio, e chegou a fazer “manobras” para levar alguns jogos no ar.

Em meio a essa batalhada judicial, houve um momento em que a Justiça decidiu que as duas emissoras poderiam transmitir o Paulistão, mas o SBT ainda teria a palavra final para decidir o horário das partidas. Até que surge uma semifinal com o maior clássico paulista: Palmeiras x Corinthians. A emissora de Silvio Santos, que não é boba, decidiu, então, que o jogo ocorreria em uma quarta-feira, às 21h, algo que complicaria vida da Globo com Mulheres Apaixonadas, sua novela do horário nobre na época.

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A estratégia, novamente, não surtiu efeito. A Globo pegou a todos de surpresa e decidiu alterar toda sua grade programação apenas para exibir a partida e não permitir que o SBT transmitisse o clássico sozinha. Mais do que isso: a Globo escalou Galvão Bueno, sua principal estrela da narração, para comandar a transmissão do jogo. O SBT não deixou barato e armou uma estratégia inusitada para que uma grande estrela também narrasse a partida.

Corinthians foi o campeão paulista de 2003 (detalhe para o logo do SBT no palco, ao fundo). (Foto: Divulgação)
Corinthians foi o campeão paulista de 2003 (detalhe para o logo do SBT no palco, ao fundo). (Foto: Divulgação)

A ideia foi fazer uma espécie de acordo com a Band para “emprestar” o saudoso Luciano do Valle para narrar o jogo no SBT. Em troca, José Luiz Datena iria ao Domingo Legal para divulgar a estreia do Brasil Urgente na Band. Novamente, apesar das dificuldades, a Globo saiu como vitoriosa, e por uma grande margem: na audiência, o placar foi de 39 pontos a 13.

Mesmo assim, o SBT voltou a repetir a estratégia, colocando a final do Campeonato, disputada entre Corinthians e São Paulo, em um horário fora do habitual para a Globo: um domingo às 18h, obrigando a emissora carioca a mudar novamente a sua grade de programação.

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O SBT acabou perdendo os direitos de transmissão do Paulistão no ano seguinte, e a Globo segue, até hoje, como principal detentora do campeonato. Silvio Santos, que tinha grandes planos em relação à transmissão do futebol, não teve mais forças para peitar a sua concorrente, e de lá para cá, conseguiu transmitir apenas a Copa Ouro e a Copa do Nordeste, que é exibida apenas regionalmente.

Nos últimos anos, os grandes rivais da Globo no futebol foram os próprios clubes, que passaram a cobrar valores maiores para assinarem com a emissora para transmissão de campeonatos. No ano passado, o Esporte interativo também ousou desafiar o monopólio da Globo, e com auxílio do grupo Turner, chegou a desembolsar uma fortuna para transmitir alguns jogos do Campeonato Brasileiro, mas apenas na TV paga. Na TV aberta, a emissora carioca segue “soberana”.

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Sobre o autor

Renan Santos

Atuando também como roteirista de TV e cinema, Renan é redator e colunista do TV FOCO desde 2014, noticiando e criticando o mirabolante e imprevisível universo televisivo e dos famosos.