Lauro César Muniz quer salvar novelas atuais

"Vou gritar", dispara Lauro César Muniz, 73, autor de telenovelas como "Salvador da Pátria" e "Roda de Fogo". Ele começa nesta semana a convidar colegas como Aguinaldo Silva, Silvio de Abreu, Gilberto Braga e Manoel Carlos para uma campanha contra…

10/04/2011 11:19

3 min

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“Vou gritar”, dispara Lauro César Muniz, 73, autor de telenovelas como “Salvador da Pátria” e “Roda de Fogo”.

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Ele começa nesta semana a convidar colegas como Aguinaldo Silva, Silvio de Abreu, Gilberto Braga e Manoel Carlos para uma campanha contra o que considera uma ameaça à sobrevivência das novelas no Brasil.

“O processo industrial está acabando com a qualidade e a solução é cortar pela metade o número de capítulos.”

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Lauro diz que as novelas foram tomadas por um “fordismo”, em referência ao norte-americano Henry Ford (1863-1947), criador de técnicas para a produção em série.

“Hoje um autor de novela não senta no computador para criar histórias. Ele virou um distribuidor de tarefas.”

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Até meados dos anos 90, quase todos os autores davam conta de, sozinhos, escrever uma novela inteira. Depois, exaustos, passaram a chefiar grupos de roteiristas que redigem os capítulos.

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Na avaliação de Lauro, isso aconteceu em razão da mudança no ritmo das novelas. “Antes, as histórias podiam ser mais lentas. Hoje, com a pressão da disputa por audiência, acredita-se que o público exige muita ação, cenas fortes que chamem a atenção a todo o momento.”

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Segundo ele, é inviável segurar uma história assim sozinho por oito meses, tempo em que os mais de 200 capítulos da novela vão ao ar.

A ampliação do número de colaboradores, avalia Lauro, fez com que “a autoria se perdesse”. “Isso acontece também na direção. Grande parte das cenas fica com assistentes do diretor. Perde-se, assim, a unidade estética.”

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MENOS É MAIS

Para Lauro, as novelas devem passar a ter 120 capítulos. “Seriam mais concentradas na história central, com menos tramas paralelas, um elenco mais enxuto, o que reduziria também os custos.”

Lauro crê que isso facilitaria o lançamento de novos autores. “É muito mais viável para uma emissora arriscar um novo nome em uma novela de quatro, cinco meses do que em uma de oito.”

Para o elenco, defende, também seria uma vantagem. “Atores como Wagner Moura, Rodrigo Santoro e Alice Braga, que não fazem novela porque têm de abandonar projetos no cinema e no teatro por muito tempo, podem topar tramas curtas.”

Nos anos 90, Lauro e outros defenderam a ideia na Globo, mas a mudança do processo de produção era recente, e a emissora preferiu deixar tudo como estava.

No segundo semestre de 2011, contudo, a Globo se aproximará dessa experiência com um remake de “O Astro”, sucesso de Janete Clair.

Enquanto o original da trama dos anos 70, famosa pelo mistério “Quem matou Salomão Hayala?”, teve 186 capítulos, o remake deve ter 80.

DESABAFO

Contratado da Record desde 2006, após 33 anos na Globo, Lauro prepara uma novela para 2012, no atual padrão de 200 e poucos capítulos.

“Isso já está fechado assim e a campanha, se for bem aceita, não deverá mudar as coisas tão cedo. Eu, com 73 anos, nem sei se vou chegar a participar disso, mas quero lançar a discussão.”

Sua insatisfação com a qualidade teledramatúrgica fica clara no livro “Lauro César Muniz Solta o Verbo”, recém-lançado pelo Coleção Aplauso (leia ao lado).

Em depoimento biográfico ao escritor Hersch Basbaum, o autor revela bastidores de seu trabalho na Globo e desabafa sobre aspectos de sua vida pessoal, como a morte do filho Ricardo, ao 28 anos, soropositivo desde os 23.

Foi um raro momento em que o ex-militante do Partido Comunista e crítico feroz das religiões questionou seu ateísmo. Conta que sabia que todo mundo que entra em uma igreja desconhecida tem direito a três pedidos.

“Fazia três pedidos iguais: salve o meu filho!”.

LAURO CÉSAR MUNIZ SOLTA O VERBO
AUTOR Hersch W. Basbaum
EDITORA Imprensa Oficial
QUANTO R$ 15 (354 págs.)

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