Supermercado com presença em 224 unidades surpreendeu clientes após falência atingir uma das maiores redes varejistas do Rio de Janeiro

A história da rede de supermercados Casas da Banha ainda desperta curiosidade entre consumidores mais antigos e também entre pessoas que acompanham os grandes casos de ascensão e queda de empresas brasileiras. Durante décadas, a marca dominou parte importante do varejo nacional, especialmente no estado do Rio de Janeiro, onde construiu uma presença tão forte que, para muitas famílias, fazer compras na rede virou parte da rotina semanal. Em seu auge, a empresa alcançou números que impressionam até hoje.

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A rede de supermercados Casas da Banha hegou a operar 224 unidades espalhadas por diferentes estados brasileiros e pelo Distrito Federal, empregou aproximadamente 22 mil trabalhadores e registrou faturamento anual superior a US$ 700 milhões, algo extremamente expressivo para o período. O crescimento acelerado transformou a rede de supermercados Casas da Banha em uma das maiores referências do setor supermercadista nacional entre as décadas de 1970 e 1980.

Supermercados Casas da Banha entrou em falência (Foto: Reprodução)
Supermercados Casas da Banha (Foto: Reprodução)

No entanto, o que parecia uma trajetória sólida acabou se transformando em um dos casos mais emblemáticos de falência no comércio brasileiro, deixando milhares de funcionários sem emprego, fornecedores sem receber e consumidores perplexos diante do desaparecimento de uma marca que parecia impossível de ruir.

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Nascimento da rede de supermercados Casas da Banha

A origem da Casas da Banha remonta ao ano de 1955, no Rio de Janeiro. O empresário Climério Veloso criou a companhia em um momento de expansão do consumo urbano no Brasil. A proposta era oferecer variedade, preços competitivos e uma estrutura moderna para a época. O modelo deu certo rapidamente. Nos anos seguintes, a empresa ampliou operações e ganhou musculatura financeira. Entre o final da década de 1970 e o começo da década de 1980, a rede acelerou ainda mais seu processo de expansão ao adquirir concorrentes como Ideal e Merci, fortalecendo sua presença principalmente no mercado fluminense.

Esse movimento empresarial fez a marca ultrapassar fronteiras estaduais e alcançar cidades em estados como São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Amazonas, Roraima e também no Distrito Federal. A rede de supermercados Casas da Banha também marcou época por projetos ousados, como a inauguração do hipermercado Porcão, no Rio de Janeiro, considerado por muitos um empreendimento à frente do seu tempo. Naquele momento, poucos imaginavam que a mesma empresa que simbolizava modernidade enfrentaria uma crise tão profunda anos depois.

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O começo da crise surgiu em 1986, em meio a mudanças profundas na economia brasileira. Para entender esse período, é importante explicar o que foram os chamados planos econômicos. Durante os anos 1980, o Brasil enfrentava inflação extremamente alta. Inflação é o aumento contínuo dos preços de produtos e serviços, reduzindo o poder de compra da população.

Para tentar controlar esse problema, o governo lançou medidas como o Plano Cruzado I e o Plano Cruzado II. Esses programas determinaram, entre outras ações, o chamado congelamento de preços, ou seja, os estabelecimentos ficaram proibidos de reajustar valores durante determinado período.

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Esse congelamento atingiu diretamente rede de supermercados Casas da Banha. Segundo representantes da empresa na época, vários produtos estavam em promoção quando o congelamento entrou em vigor.

Falência do Supermercados Casas da Banha (Foto: Reprodução / Internet)
Falência do Supermercados Casas da Banha (Foto: Reprodução / Internet)

Com isso, a rede de supermercados Casas da Banha precisou manter preços baixos durante meses, mesmo enfrentando aumento de custos internos. A margem de lucro despencou, o caixa começou a sofrer pressão e o endividamento passou a crescer. O problema não surgiu de uma vez, mas foi se acumulando ano após ano.

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A situação se agravou ainda mais no início da década de 1990 com outro evento marcante da economia brasileira: o Plano Collor. O que foi o Plano Collor? Foi um pacote econômico lançado em 1990 pelo governo federal que, entre várias medidas, bloqueou temporariamente parte do dinheiro depositado em contas bancárias de pessoas e empresas. O objetivo era reduzir a quantidade de dinheiro circulando na economia e conter a inflação. Para empresas com operações gigantescas, como a Casas da Banha, essa medida teve impacto devastador.

Sem acesso pleno ao próprio capital, com dívidas acumuladas e custos operacionais elevados, a rede entrou em um processo de deterioração financeira. Em 1991, o número de funcionários caiu para cerca de 9 mil, bem abaixo do contingente que a empresa mantinha em seu auge. O fechamento de lojas começou de forma gradual, mas logo ganhou ritmo acelerado.

Em 1992, a situação ficou ainda mais evidente para o mercado. Das 224 unidades que existiam anteriormente, 149 foram vendidas ou repassadas como forma de pagamento de dívidas, enquanto outras 75 permaneceram fechadas aguardando negociações. O impacto social foi enorme. Milhares de trabalhadores perderam renda, famílias inteiras precisaram reorganizar a vida financeira e bairros tradicionais do Rio de Janeiro passaram a conviver com imóveis comerciais fechados onde antes funcionavam unidades da rede.

Falência da rede de supermercados Casas da Banha

No ano seguinte, em 1993, outro problema explodiu. A rede de supermercados Casas da Banha enfrentou aproximadamente 9 mil processos trabalhistas, reflexo direto das demissões em massa e das dificuldades financeiras que já comprometiam o pagamento de obrigações trabalhistas. Mesmo com tentativas de reorganização financeira e pagamento gradual de indenizações, a recuperação nunca aconteceu de forma efetiva.

Depois de anos tentando sobreviver, a história chegou ao capítulo final em 28 de abril de 1999. Naquela data, a Justiça decretou oficialmente a falência da rede de supermercados Casas da Banha . A decisão partiu da 2ª Vara de Falências e Concordatas do Rio de Janeiro, sob responsabilidade do juiz Luiz Felipe Salomão. Segundo registros da época, a própria empresa reconheceu oficialmente que não tinha mais condições de honrar suas dívidas. A Justiça determinou prioridade para pagamentos trabalhistas e autorizou o lacre das instalações.

Ilustrações falência e supermercado (Fotos: Canva)
Ilustrações falência e supermercado (Fotos: Canva)

Assim terminou uma trajetória de 44 anos, marcada por inovação, crescimento acelerado, forte presença cultural e, ao mesmo tempo, por uma queda que refletiu diretamente os desafios econômicos do Brasil naquele período.

Mesmo décadas depois da falência, o nome Casas da Banha ainda aparece em músicas, programas de televisão antigos e nas lembranças de consumidores que acompanharam uma das maiores potências do varejo brasileiro desaparecer diante dos próprios olhos.